Como manter as conversas de coparentalidade centradas nos filhos
Quando mensagens práticas se transformam em discussões antigas, alguns limites claros podem ajudar a manter as conversas de coparentalidade centradas nos teus filhos.
Pela RelationQPublicado 8 min de leitura

Porque é que as mensagens práticas podem parecer pessoais
Depois de uma separação, duas partes da vossa relação podem sobrepor-se: a relação amorosa que acabou e as responsabilidades parentais que continuam. As duas podem aparecer na mesma conversa de mensagens.
Uma pergunta sobre os sapatos da escola pode lembrar-te de quem é que tratava de tudo. Uma resposta que demora pode trazer de volta a sensação de que não te ligavam. Um pedido para mudar o horário pode parecer mais um exemplo de planos feitos sem ti.
Às vezes estas reações estão ligadas a sentimentos por resolver. Outras vezes o pedido em causa é mesmo injusto, pouco claro ou inconveniente. Não tens de pôr de parte nenhuma das hipóteses.
A distinção útil é entre o que tem de ser decidido agora e o que pertence a outra conversa. Por exemplo, podem falar de quem vai buscar os miúdos na quinta-feira sem terem também de resolver anos de desentendimentos sobre quem é ou não de confiança.
Porque é que conversas pequenas se tornam discussões
Há alguns padrões comuns que podem dificultar a comunicação prática.
- O tom é interpretado. Uma mensagem curta pode soar desdenhosa ou exigente, mesmo quando quem a enviou a queria neutra.
- O momento conta. Um pedido que chega tarde à noite ou durante uma entrega tensa dos miúdos pode ser mais difícil de gerir.
- Um assunto puxa outro. Uma mudança de horário transforma-se numa discussão sobre cancelamentos anteriores, consultas a que alguém faltou ou desentendimentos antigos.
- As expectativas não são claras. Os pais podem ter ideias diferentes sobre a antecedência com que se avisa, o tempo de resposta ou o que conta como urgente.
- Os filhos ficam no meio dos adultos. Podem ter de passar recados, explicar uma decisão ou ouvir desentendimentos que não lhes cabe gerir.
Reconhecer estes padrões não significa ignorar problemas legítimos. Significa dar a cada problema um lugar mais claro onde ser tratado.
Usa uma estrutura simples nas mensagens práticas
Quando as emoções estão à flor da pele, ter uma estrutura conhecida pode tornar as mensagens mais fáceis de escrever e de perceber. Experimenta quatro passos.
Diz qual é o assunto
«Sobre ir buscar os miúdos na quinta-feira.»
Dá os factos necessários
«Vou sair do trabalho às seis em vez das cinco.»
Faz um único pedido claro
«Consegues ir buscá-los à escola? Eu passo em tua casa para os trazer às 18h30.»
Deixa de fora o passado que não interessa
Evita acrescentar «outra vez», «como sempre» ou uma lista de desentendimentos anteriores, a não ser que o que aconteceu antes seja diretamente relevante para a decisão de agora.
A mensagem completa pode ficar assim:
- «Sobre ir buscar os miúdos na quinta-feira: vou sair do trabalho às seis em vez das cinco. Podes ir buscá-los à escola? Eu passo em tua casa para os trazer às 18h30. Diz-me até amanhã à noite se te dá jeito.»
É prática, concreta e dá ao outro progenitor algo claro a que responder. Uma mensagem prática não tem de reparar o passado. Só tem de tratar da decisão que tens à frente.
Combinem como vão comunicar
Às vezes o desacordo começa antes de alguém falar do assunto em si. Um liga quando o outro esperava uma mensagem. Uma mudança de planos é falada durante a entrega dos miúdos. Um pedido urgente fica misturado numa conversa normal.
Quando a comunicação é segura e é possível cooperar, pode ajudar combinarem algumas expectativas básicas. Pensa em:
- Um só sítio para combinar as coisas. Usem um calendário partilhado, uma app de coparentalidade ou uma conversa de mensagens combinada para horários e informações práticas.
- Tempos de resposta razoáveis. Combinem em quanto tempo as mensagens do dia a dia costumam precisar de resposta, sem esperar que algum dos dois esteja sempre disponível.
- Um canal à parte para urgências. Decidam como comunicam sobre assuntos de saúde ou segurança que não podem esperar.
- Entregas previsíveis. Mantenham as entregas centradas nos filhos e evitem puxar temas difíceis à frente deles.
- Confirmação por escrito. Quando os planos mudam, confirmem em poucas palavras o que ficou combinado, para que os dois tenham a mesma informação.
Estas expectativas devem adequar-se à vossa situação e a qualquer acordo formal sobre as responsabilidades parentais. Não precisam de um sistema complicado. Algumas regras em comum podem fazer com que as decisões do dia a dia se transformem menos vezes em negociações.
Coisas que podes dizer
Quando os planos estão sempre a mudar
«Podemos pôr as mudanças de horário no calendário partilhado, para os dois termos a mesma informação?»
Quando uma conversa começa a puxar o passado
«Gostava que esta conversa fosse só sobre o que combinamos para quinta-feira. Se for preciso, falamos do outro assunto à parte.»
Quando precisas de tempo antes de responder
«Vi a tua mensagem. Vou confirmar os detalhes e respondo-te ao fim do dia.»
Quando um assunto não deve ser falado na entrega dos miúdos
«Vamos combinar outra altura para falar das férias, em vez de o fazermos à frente dos miúdos.»
Quando precisas de um pedido mais claro
«Podes dizer-me o que estás a propor e até quando precisas de uma resposta?»
Não tens de usar exatamente estas palavras. Escolhe uma versão que te soe natural e que faça sentido na tua situação.
E se o outro progenitor não quiser cooperar?
Comunicar com clareza pode ajudar, mas não consegue fazer com que outra pessoa responda com respeito ou de forma fiável. Se as mensagens acabam repetidamente em discussão, concentra-te no que continua a depender de ti. Podes:
- Limitar as tuas respostas ao assunto prático.
- Evitar responder a acusações que não têm a ver com o assunto.
- Combinar por escrito o que é importante.
- Guardar registos rigorosos das mudanças combinadas.
- Remeter para os acordos parentais existentes, quando fizer sentido.
- Pensar em ferramentas estruturadas de coparentalidade ou em apoio profissional.
Em algumas situações de conflito elevado, a parentalidade paralela pode funcionar melhor do que uma comunicação frequente e colaborativa. Pode passar por horários mais estruturados, limites mais claros e menos contacto direto, quando for adequado e compatível com os acordos legais.
O objetivo não é forçar uma relação de cooperação que neste momento não existe. É encontrar uma solução prática que proteja as necessidades dos filhos e reduza os conflitos desnecessários.
Quando discordam sobre decisões parentais
Duas casas nem sempre vão seguir rotinas iguais. Os filhos podem ter regras diferentes para as refeições, a hora de deitar, as atividades ou o tempo de ecrã. Isso não significa automaticamente que um dos pais esteja a fazer alguma coisa mal.
Quando falarem de uma diferença, comecem pelas necessidades da criança e não por qual dos dois tem a melhor abordagem.
Em vez de
«A tua rotina de deitar está completamente errada.»
Experimenta
«Esta semana têm andado muito cansados na escola. Podemos falar sobre o que pode ajudar nas noites antes das aulas?»
Para decisões maiores, confirma as responsabilidades definidas nos vossos acordos parentais e na lei aplicável. Quando for adequado e seguro, um mediador familiar qualificado pode ajudar com desacordos que se repetem.
Não precisam de casas iguais para dar aos filhos cuidado, estabilidade e uma comunicação previsível.
Deixa os filhos fora dos desacordos dos adultos
Os filhos não deviam ter de servir de mensageiros, negociadores ou juízes entre os pais. Sempre que possível:
- Combina as coisas diretamente com o outro adulto.
- Evita pedir aos filhos que levem queixas ou pedidos de pagamento.
- Não uses os filhos para saber o que o outro progenitor anda a fazer.
- Evita criticar o outro progenitor durante as entregas.
- Tranquiliza os filhos: os desacordos dos adultos não são eles que os têm de resolver.
Se o teu filho ou a tua filha perguntar por um desacordo, responde de forma adequada à idade, sem lhe pedir que tome partido. Uma resposta simples pode ser:
- «Estamos a tratar de combinar as coisas. Não tens de ser tu a resolver isso.»
O objetivo não é fingir que nunca há desacordos. É evitar que os filhos se sintam responsáveis por os gerir.
Quando não é um problema de comunicação
Algumas situações exigem mais do que mensagens mais claras. Se o outro progenitor usa ameaças, intimidação, vigilância, assédio ou os acordos parentais para te controlar, o problema pode envolver abuso ou controlo coercivo. Nessas circunstâncias, conselhos para tornar as mensagens mais neutras podem não ser adequados nem seguros.
Não tens de continuar a negociar diretamente com alguém que te está a ameaçar. Aconselhamento jurídico, serviços de apoio a vítimas de violência doméstica e profissionais adequados podem ajudar-te a explorar formas mais seguras de comunicar e de organizar a parentalidade. Dependendo das circunstâncias, as opções podem incluir comunicação estruturada por escrito, comunicação através de representantes ou soluções supervisionadas.
Se tens receios quanto à segurança, dá prioridade à tua segurança e ao bem-estar dos teus filhos em vez de manter a comunicação direta.
Uma pequena mudança que conta
Uma boa comunicação na coparentalidade não significa estarem de acordo em tudo nem ficarem amigos depois da separação.
Às vezes o progresso é resolver uma mudança de horário em três mensagens em vez de trinta. Às vezes é reconhecer uma discussão antiga antes de responderes. E às vezes é pôr um limite àquilo que aceitas discutir.
Podes trabalhar para uma comunicação mais clara sem assumires a responsabilidade pela forma como o outro progenitor se comporta.


